P - Quais são os grandes problemas do concelho?
R- Os problemas do concelho são estruturais. Temos uma situação que é comum a todo o interior do país. Costumo dizer que, desde de Bragança até à Serra da Algarvia, temos todos os mesmos problemas como o despovoamento; não temos gente, não temos massa crítica e em locais onde não há investimentos, não se criam postos de trabalho, e sem a criação de postos de trabalho, naturalmente, não se fixa a população. Eu tenho dito, sucessivamente, e tenho feito essas exigências, mesmo perante o poder político, de ser necessário repensar o país. Nós temos de repensar o interior deste país sob pena de vermos tudo a pender para o litoral! É lá que são feitos os grandes investimentos! É para lá que se deslocalizam os serviços! É lá que se criam as universidades! E, assim, o país está a ser mal pensado, mal administrado e mal estruturado. Enquanto esta situação se mantiver nós vamos assistir a um agravamento da conjuntura. Já vivemos uma situação difícil, mas dentro de meses as nossas aldeias ficarão mais despovoadas, serão quintas, e os concelhos vão acabar por desaparecer. Não tem havido a coragem de se fazer uma reforma administrativa, mas isso vai acabar por acontecer de uma forma natural. O que certamente não é bom, nem para o próprio país, que é desigual, que vai acabar por concentrar as pessoas nas metrópoles, nas grandes cidades, com todos os problemas sociais que isso acarreta. Tinha que haver essa coragem política, para efectivamente inverter esta situação.
P – Que medidas a autarquia pode tomar para contrariar esta tendência?
R – Penso que não tem de ser a autarquia a tomá-las. A autarquia pode tomar algumas e já as tomou. E a prova é que não deram resultados. Por exemplo, nós já abdicámos da participação do IRS em 3% a favor dos contribuintes, temos o IMI no valor mais baixo que é exigível por lei, não cobramos o derrama (enquanto o IVA se mantiver nos níveis actuais), suspendemos as taxas de publicidade, instituímos o cartão social municipal com grandes incentivos ao nível dos descontos nas termas, no fornecimento de água, em suma, na utilização de todos os equipamentos. Estes incentivos pouco resolvem, mas eu já tinha consciência disso… Agora as soluções têm de ser políticas e não dependem dos autarcas, mas antes da vontade política do país. Apresento uma solução fácil, sobre a qual já tive a oportunidade de falar com vários governantes, por exemplo, enquanto o PIB do interior não estivesse no mínimo a 80% do que representa em Lisboa ou no Algarve, as empresas que se viessem aqui sediar ou fixar seriam isentas de pagamento de IRC e deveriam ser dados incentivos aos próprios trabalhadores. Com estas regalias somadas ao que o Município de Almeida já está a conceder aí sim, creio que haveria muitos empresários a pensar duas vezes, antes de se instalarem num grande centro. Porque virem com a incerteza de que as medidas são por três anos não é um incentivo que vai cativar a vontade de ninguém. Porque sabem que ao fim de três anos é quando, eventualmente, a empresa poderá vir a dar lucros e se nessa altura lhe forem tirados incentivos, voltamos a cair no mesmo problema… Assim tínhamos uma medida de médio e longo prazo porque sabíamos que enquanto o PIB não estivesse a 80% do PIB a nível de Lisboa ou do Algarve, os empresários pensariam em vir, porque sabiam que no momento em que estivéssemos a esses níveis já estávamos a produzir riqueza. Então tínhamos condições no território para fixar as pessoas.
P – Uma das reivindicações da autarquia tem sido o acesso de Vilar Formoso à auto-estrada espanhola. Em que estado se encontra?
R – Eu estive numa reunião, (a última depois de várias que já solicitei com o anterior Governo e o actual), há pouco tempo, em Lisboa, com as Estradas de Portugal. Tentei sensibilizar os responsáveis da administração para o problema dessa ligação e o que isso representa para Vilar Formoso. Gostaria que houvesse sensibilidade para que todos entendessem que se essa ligação não for feita Vilar Formoso e Fuentes de Oñoro ficarão irremediavelmente perdidos e com o futuro comprometido. Porque todos sabemos que estas localidades viviam e ainda vivem da actividade comercial – embora essa tenha vindo a definhar progressivamente –, mas a única animação que há ao nível da economia local prende-se com a restauração. E este ramo, bem como a hotelaria, ainda têm as taxas de ocupação aceitáveis e razoáveis para poderem pelo menos manter os postos de trabalho e manter uma economia que estabilizou, mas que poderá crescer. Porque todos sabemos que o tráfico de pesados pelo contrário tem vindo aumentar. Vilar Formoso deve aproveitar estas novas oportunidades e uma delas passa pelo aproveitamento das pessoas que, obrigatoriamente, têm de passar em Vilar Formoso, que é a principal fronteira terrestre do país, é a “porta da Europa”. Desde logo repensando as condições do Parque TIR. E esta é uma das minhas preocupações! Tenho vindo a reivindicar e tenho dito, sucessivamente, que esta não deveria ser uma obra do município. Uma vez que Vilar Formoso é a principal fronteira terrestre do país, o Parque de TIR deveria ter outras condições, as quais deveriam ser disponibilizadas pelo Governo. O Parque devia ser um local mais atractivo, ampliado e com melhores condições de higiene. Eu tenho dito muitas vezes que apesar de existir uma Plataforma Logística (PLIE) na Guarda e apesar de haver a Zona de Apoio Logístico (ZAL) em Salamanca, não estão vocacionadas para serem locais de estacionamento, para proporcionar o descanso aos motoristas, e Vilar Formoso podia ser transformada nessa plataforma, que daria e forneceria essas condições. Mas a nossa ideia vai mais longe do que isso e não desejaria apenas que fosse feita a ligação e que se construísse e se desse condições no Parque TIR, mas que se transformasse aquele corredor entre o nó de acesso à A25 e A62 com a ligação numa zona de serviços onde haveria, provavelmente, a deslocação de empresas e se criasse ali uma zona que pudesse dar resposta a quem passa, nomeadamente, aos camionistas, mas também a todos os passageiros, que também passam aos milhares por aquele espaço.
P – O turismo continua a ser uma área estratégica do município?
R – Sim, sem dúvida! O Município de Almeida tem essas condições para oferecer, nomeadamente a vila dispõe de umas muralhas que são das melhores conservadas da Europa, temos uma série de equipamentos a que viemos dando uma utilização diferente em espaços que estavam desaproveitados ou abandonados. Dou como o exemplo o trem de artilharia que foi adaptado ao Picadeiro D’El Rei, as portas de S. António, o Posto de Turismo e agora a Sala de Armas. E ainda as Casamatas como Museu Militar, as portas de S. Francisco como uma sala polivalente e outra como um Centro de Estudos de Arquitectura Militar. Procurámos transformar os espaços que estavam desaproveitados, muitas vezes em ruína. Dando-lhes uma dinâmica, aproveitámos para instalar equipamentos, alguns de muita qualidade. Com tudo isto, criámos os ingredientes mínimos para que hoje Almeida mereça uma visita demorada e prolongada. As Casamatas, por exemplo, só por si merecem uma visita, porque são únicas no Mundo, com as 24 salas abobadadas. Agora contamos com a instalação do Museu que queremos ver crescer! Para já ainda só estão 7 salas “musealizadas”, mas vamos agora “musealizar” mais duas: uma com todo o espólio resultante dos trabalhos de arqueologia do castelo e uma outra dedicada à guerra colonial, que também foi um período da nossa história que ali queremos deixar testemunhado.
P – O "Picadeiro D'el Rei" foi uma grande aposta. Como é que está a funcionar?
R – Eu penso que bem! Há sempre condições para melhorar e nós temos sempre essa pretensão de querermos melhorar. Nesse sentido para além de ministrarmos aulas de volteio, passeios a cavalo com charrete, temos cavalos da própria empresa municipal que está a gerir o equipamento. Creio que temos vindo a melhorar a nossa prestação, a nível daquilo que podemos oferecer…
P – Em termos turísticos têm conseguido retirar dividendos pelo facto de haver mais proximidade aos visitantes espanhóis?
R – Não tenho dúvida! Fizemos uma grande operação de marketing, com uma forte aposta na divulgação e estivemos presentes nas principais feiras de turismo de Espanha, e não só! Temos sido presença assídua na FITUR, em Madrid, que é uma das maiores feiras de turismo do mundo; na INTUR, que é de Turismo Rural. Fruto do consórcio com Ciudad Rodrigo, estivemos também em Inglaterra para captarmos um outro tipo de turistas, que são os ingleses. Até porque este ano comemoramos o bicentário da Guerra Peninsular, onde estiveram envolvidos portugueses, franceses e ingleses… Apesar da crise que vivemos o que é um facto é que temos tido muitos turistas espanhóis. De facto, diminuímos cerca de 6 a 7 mil visitantes espanhóis no ano de 2009 comparativamente com o ano de 2008. Mas é natural por causa da crise….
P – As Recriações Históricas das Invasões Francesas em Agosto são uma das grandes apostas turísticas do concelho?
R – Sim, sem dúvida, por isso já vamos na 5.ª edição. Temos vindo a ganhar em qualidade e também no número de figurantes, o que é também um barómetro e um marco significativo daquilo que tem sido feito. Começámos de uma forma lúdica, como um ensaio, mas logo no primeiro ano excedeu as nossas expectativas e, portanto, as seguintes têm vindo aumentar em número de “recriadores” e espectadores. Por isso esperamos que este ano – até porque comemoramos o Bicentenário –, as expectativas sejam ainda maiores. Para já, temos confirmado que o número de participantes será maior do que dos anos transactos. Mas também esperamos que a nível de público assim aconteça e que sejam três dias de enchente…. Vale a pena vir a Almeida, porque se vive aqui a história de uma forma muito genuína e talvez seja isso também motivo de atracção nesse fim-de-semana.
P – Em 2008 foi anunciado o desejo da autarquia de transformar antigos armazéns da CP (Vilar Formoso) em Museu. Como em que está este projecto?
R – Infelizmente desse projecto não posso dar boas notícias, pois não posso disponibilizar as minhas vontades porque dependem de terceiros. A minha vontade era avançar com o projecto, mas como dependemos de terceiros e, infelizmente, neste país, é um problema quando se trata de património seja ele do Tesouro ou entidades públicas, neste caso. Têm sido difíceis as negociações! Eu tenho problemas muito grandes com negociações em relação ao património. Tenho aqui em Almeida, por exemplo, o quartel das Esquadras. Podíamos fazer um aproveitamento completamente diferente deste bonito espaço e tem sido quase impossível negociar. Estou agora a ter negociações com a alfândega em Vilar Formoso para instalar a sede da Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial (AECT) e continuo a ter com a REFER e com a CP por causa dos armazéns que estão desactivados e estão transformados em pombais. E é uma pena que assim aconteça, porque nós podíamos dar um outro aproveitamento àquele espaço. Eu tenho um projecto e ideias, temos um ante-projecto, mas o que é um facto é que as negociações têm sido difíceis…
P - Qual a “prenda” que gostaria de receber para a autarquia?
R – Há tanta coisa que gostaria de ver transformada que é difícil escolher uma. Mas vou ter de pedir duas… O que eu gostaria é que o QREN começasse definitivamente a funcionar; nós dependemos muito, quase inteiramente, do que são as transferências do orçamento geral do Estado, do que são os fundos comunitários. Para nós era essencial que o QREN começasse a funcionar. Nós temos uma “frente de trabalho” do município, neste momento, superior a 6 milhões de euros e está a transformar-se numa situação insustentável. Portanto era bom que, passados mais de três anos depois de ter sido anunciado e ter sido implementado e ter entrado em vigor, começasse definitivamente a funcionar. E a outra vontade, era que fossem tomadas verdadeiras medidas de incentivo político para o interior, para que definitivamente Portugal não fosse um país dividido entre litoral e interior.