P - Quais são os problemas principais com que se debate o concelho?
R - Os principais problemas certamente que serão muito semelhantes ou iguais aos dos outros Municípios do distrito da Guarda. Como sabem, somos concelhos – como eu costumo dizer –, do interior do Interior do país e, portanto, debatemo-nos com problemas graves, nomeadamente em termos de êxodo das populações, o que implica à partida termos diminuição constante da população e, por consequência, o concelho fica mais pobre. Porque os concelhos não se podem desenvolver, no meu ponto de vista, sem massa crítica e sem massa humana; só assim se podem desenvolver… Nos nossos concelhos estamos a ver precisamente o contrário: morrem três pessoas e nasce uma! Portanto estamos com taxas de crescimento altamente negativas, logo, com as populações a diminuir drasticamente nos nossos concelhos. E por diversas razões, como todos nós sabemos… Para além do êxodo das pessoas que saem do concelho e vão para o litoral ou para o estrangeiro; logicamente, que vão diminuindo as nossas potencialidades. E portanto não há empregabilidade. A partir do momento em que não há empregabilidade, não há fixação de empresas e portanto as pessoas vão saindo à procura, logicamente, de sobrevivência. As pessoas que vivem no nosso concelho já são pessoas com uma certa idade, que já não se aventuram muito a sair fora dos seus lares à procura de novas vidas. O principal problema dos nossos concelhos reside essencialmente aí, na falta de emprego, na falta de pessoas. Portanto, tudo isto é uma “bola de neve”que vai crescendo e trazendo graves problemas, não só ao meu concelho, como aos outros e ao Interior do país.
P - Que projectos pretende implementar para lançar a dinamização económica de Pinhel?
R - O Município pode fazer tudo e mais alguma coisa! O Município, dentro das suas possibilidades, pode oferecer condições para a instalação de indústrias, empresas. Mas mesmo que os Municípios façam este esforço, não significa que consigamos, na verdade, cativar empreendedorismo para as nossas zonas. Não conseguimos! Porque estamos mais perto da Europa, mas também mais afastados da Europa, e por diversas razões… Logicamente que o TGV não vai passar aqui; como já sabemos, está com um ligeiro atraso de dois anos. Quem queria apanhar já o TGV, vai apanhá-lo com dois anos de atraso! [Graceja] Naturalmente que temos uma via rodoviária que é interessante, que é a A25 que nos liga à Europa, mas depois temos os portos e os aeroportos longe e, portanto, tudo isto dificulta a instalação de empresários ou empreendedores nas nossas zonas. Mesmo que nós ofereçamos tudo e mais alguma coisa, como terrenos, infra-estruturas… Mas as pessoas não vêm do Litoral para se instalarem no Interior.
P - Para os pavilhões onde estava instalada a fábrica de calçado tem-se falado de vários investimentos. Afinal como estão essas intenções? Que empresas se estão ou irão instalar-se nas antigas instalações da Rhode?
R - As antigas instalações da Rhode já foram várias vezes disponibilizadas para quem se quisesse instalar: desde fábricas familiares, fábricas com alguma dimensão ou PME´s. Tudo isso já foi oferecido, vários contactos já foram feitos, mas não vemos ninguém a fixar-se no Interior, por mais que nós lhe ofereçamos condições. O problema – na minha perspectiva – não passa por aí. O problema terá de passar, eventualmente, por ajudas por parte da administração central, nomeadamente com a redução de impostos e/ou criando incentivos às empresas que se instalem no Interior do país em detrimento do Litoral. Desagravando outros problemas que vão acontecendo certamente no Litoral, como o aumento da população e o aumento de infra-estruturas, tudo está a aumentar no Litoral em detrimento do Interior. Portanto, há aqui um desequilíbrio muito grande entre o Litoral e o Interior deste país, que nos vai prejudicando. Logo, vamos vivendo e vamos resistindo, mas sabemos à partida que isto vai ser muito difícil e, com a crise que estamos a atravessar, ainda mais difícil para os nossos concelhos.
P - Como pretende contrariar o desemprego que tanto tem fustigado esta região?
R - Esta é a pergunta que se coloca: o que é que nós podemos fazer para criar emprego? Nós vamos fazendo aquilo que está ao nosso alcance, porque nós somos Câmaras com receitas próprias muito baixas, que vivemos essencialmente do Fundo de Equilíbrio Financeiro e, portanto, não temos receitas próprias, o que nos leva a gerir o dinheiro que vem da administração central. No entanto, o dinheiro que vem da administração central não dá praticamente para nada! Porque se analisarmos todos os investimentos que temos feito e a sua manutenção, chegamos à conclusão que vamos gastar esse dinheiro em abastecimento de água, em tratamento de esgotos, manutenção de estradas, em manutenção de alguns equipamentos que já temos. E chegamos à conclusão que o dinheiro acaba por já não chegar para as manutenções, quanto mais para fazermos investimentos. Mas mesmo assim nós continuamos a apostar; continuamos a fazer regulamentos de incentivo para jovens, diminuindo as respectivas contribuições; vamos oferecendo terrenos para a instalação de indústrias (ou quase que são oferecidos) e mesmo assim as pessoas não aparecem. Portanto, apesar de todos os esforços que nós possamos fazer, não vemos depois ressarcido esse nosso esforço na prática, com a implementação de indústrias, que isto é que nos podia eventualmente criar empregabilidade.
P - O Turismo – que todos os autarcas da região abraçam como a última hipótese para desenvolverem os seus concelhos – também é uma aposta estratégica do Município?
R - Falamos muito do Turismo, falamos muito do nosso património natural e paisagístico que pode trazer turistas. Mas para trazer turistas tem de haver infra-estruturas mínimas. Também é uma aposta deste Município. Nós até pertencemos a uma Associação de Municípios do Vale do Côa, que visa essencialmente dinamizar o Vale do Côa. Mas está a demorar muito a arrancar… Eu vejo as coisas já por este lado um bocadinho “negras”, digamos assim, já estou céptico em relação ao nosso Turismo e a esta Associação de Municípios que pretendia na realidade desenvolver o Turismo nesta região, com suporte num cluster que se chama Museu do Côa. Vamos ver se este Museu do Côa vai funcionar, como é que vai funcionar, o que é que nós podemos fazer a partir desse espaço museológico e da Arte Rupestre, se podemos extravasar para todos os concelhos que fazem parte desta Associação de Municípios. E depois fazer rotas turísticas que sejam interligadas, quer com Espanha quer com Portugal, no sentido de criar uma dinâmica forte em termos turísticos. Cidadelhe também fará parte desse roteiro turístico. Agora, desde o que nós estamos a pensar fazer até que isto se coloque em prática, se concretize esta ideia, vão demorar muitos anos…
P - A Feira das Tradições e Actividades Económicas de Pinhel é a grande aposta de promoção e realização de evento. Poderão vir a investir em algum outro evento que possa atrair mais pessoas, mais visitantes, à cidade?
R - A Feira das Tradições é uma das apostas. E é uma das apostas porque pensamos que temos a sorte de neste momento ter um espaço com excelentes condições; infelizmente, por um lado, porque, neste momento, estamos a fazer a Feira nas instalações da ex-fábrica da Rhode, que é agora propriedade de um empresário da terra e nos cede as instalações gratuitamente para fazermos estes eventos. Portanto, neste momento, no distrito, somos o concelho que tem condições excepcionais para fazer uma grande feira deste género. Mas nós queríamos fazer muito mais, porque o espaço está disponível por parte do empresário, portanto não queríamos que fosse só uma feira do concelho de Pinhel, pretendíamos que fosse uma feira do distrito. Nomeadamente aproveitar estas instalações para reunir as potencialidades do distrito da Guarda e usufruirmos deste espaço, que é um espaço digno para fazer várias feiras, nomeadamente a Feira da Gastronomia a nível distrital, ou a Feira dos Granitos a nível distrital, ou a Feira dos Vinhos a nível distrital ou a Feira dos Produtos Agrícolas a nível distrital. Há vários temas que podiam ser desenvolvidos naquele espaço. Acho que estas instalações podiam potenciar não só o concelho de Pinhel, como todos os outros concelhos à volta, ou seja, o próprio distrito da Guarda, porque temos aqui condições excelentes para desenvolver todas estas temáticas e mostrarmos aos nossos amigos espanhóis as nossas potencialidades.
P - Durante a realização da última edição da Feira das Tradições reivindicou mais investimento do Estado. Já obteve repercussões do seu pedido?
R - Não! E também não posso reivindicar muitos investimentos por parte da administração central. Nesta altura, com o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), nós sabemos que estamos em condições na verdade difíceis, também compreendemos isso. Nós não queremos muitos investimentos; queríamos é que pelo menos se concluíssem alguns que tiveram início e não foram acabados, pelo menos esses. Nem estamos a exigir novos investimentos…
P - Quer dar algum exemplo concreto?
R - Falo nomeadamente da conclusão da E221: temos um estrangulamento no Carvalhal das Gouveias, cuja intervenção estava no projecto de requalificação da 221, mas não foi feito… E, portanto, nós gostaríamos que fosse concluído aquele pequeno troço, porque traz prejuízos consideráveis, quer para os transeuntes quer para a própria população. Penso que não será um investimento também tão grande quanto isso… E através do QREN gostaríamos de ver outro investimento no concelho. Certamente que para o desenvolvimento regional também era muito importante, que era uma ligação entre a A25 e a A23 a norte. Portanto, todos os utentes que viesse do lado de Mêda ou Foz Côa poupariam muitos quilómetros se tivessem uma ligação directa à A25. Parte desse troço está feito desde o Alto do Leomil até Pinhel; falta de Pinhel até Marialva. Portanto, seria para nós um eixo de desenvolvimento extremamente importante.
P - Qual a “prenda” que gostaria de receber para a autarquia?
Se pudesse ser muito exigente gostaria de receber muitas prendas para a autarquia. Eu precisava, eventualmente, de uma prenda de 10 milhões de euros! Já ficava contente, porque há projectos que eu gostaria de ver concluídos neste concelho, nestes quatro anos. Certamente não vou conseguir, porque não temos capacidade financeira para os desenvolver. E gostaria de referenciar alguns, nomeadamente infra-estruturas, que para nós ainda são importantes, sobretudo a deslocalização do actual campo de futebol para outro espaço que fica contíguo, quer ao pavilhão gimnodesportivo quer à futura piscina. Portanto, gostaria de ver este espaço no centro da cidade, junto às escolas. Seria um espaço transformado num grande jardim de interactividade multimédia e com uma pequena central de camionagem, porque ficaria no “coração” da cidade. Esse espaço seria requalificado e integrado no espaço escolar, também. Seguidamente, gostaria de deslocalizar o campo de futebol para outro local, junto ao actual pavilhão, num terreno que é particular e gostaria de aí colocar um pequeno investimento para a prática do futebol sem grandes megalomanias, à nossa dimensão, e nada mais do que isso. Paralelamente, a construção das piscinas é outro equipamento que nos faz falta. Bem como a requalificação da zona antiga que ainda falta. Fizemos já uma grande intervenção relativamente à zona antiga, mas há uma parte do comércio que eu gostaria de requalificar, que é a Rua da República. Acabar a rede viária, e já não vou falar das infra-estruturas básicas, nomeadamente águas e saneamentos, porque essas temos praticamente concluídas, com muito esforço. E gostaria de criar um novo espaço com lotes de terreno com uma área maior, para poder oferecer também a quem nos procura. Porque temos muitos terrenos, que disponibilizamos, mas, infelizmente depois não vemos nada concretizado! Portanto, neste momento até estamos em “mãos” com esse processo. Terrenos que entregámos a potenciais investidores, que não têm investido e cuja recepção dos dividendos nós teremos de fazer, por forma a fazer o retorno desses lotes.